Panorama Semiótico (Esboço incompleto)
• Do grego semeîon > signo, sêma (sinal ou signo)
• Semiotics na forma plural do inglês é recente.
• Charles Sanders Pierce : preferia Semeiotic,
• Charles Morris também preferia a forma singular Semiotic
• O plural foi utilizado em analogias com as demais formas plurais que, em inglês, denominam ciências. Approaches to semiotics (1964)
• A semiótica encontra sua referência mais antiga na história da medicina; entendia-se como o primeiro estudo diagnóstico dos signos das doenças.
• O Médico Galeno de Pérgamo (139-199), por exemplo, referiu-se ao diagnóstico como sendo a parte da semiótica da medicina.
• Grécia : medicina
• …muitas das questões de desenho chamadas de estéticas, podem ser explicadas pela teoria dos signos ( Horst Oehlke, in Bïrdek 1994, p.134)
Principais Precursores da Semiótica
1. O período clássico
2. O período medieval
3. Racionalismo
4. Empirismo britânico
5. Iluminismo francês
6. Iluminismo alemão
7. Fonte: http://semiotica.com.sapo.pt/apontamentos/txbreve.htm
1. O período clássico
Platão
1. Os signos verbais, naturais ou convencionais, são apenas representações incompletas da verdadeira natureza das coisas.
2. O estudo das palavras nada revela sobre a verdadeira natureza das coisas uma vez que a realidade das ideias é independente das representações sobre a forma de palavras.
3. O conhecimento mediado por signos é indirecto e inferior ao conhecimento imediato e a verdade sobre as coisas através das palavras é inferior ao conhecimento da verdade em si, mesmo que as palavras empregues sejam agradáveis e cuidadas.
4. O verdadeiro saber não é de natureza simbólica, mas só simbolicamente se acede a esse saber: processo dialéctico de subida do conhecimento (do devir à essência). A linguagem tem uma função dialéctica. Exemplo do círculo: nomeação (onoma) – definição (logo) – imagem (eidolon) – ciência (epistemh). Outros tópicos: Visão fonocêntrica da escrita Arbitrariedade, correcção das palavras. Teoria da iconicidade das imagens mentais Mimésis na literatura.
Aristóteles
Signo
1. Marcas escritas são símbolos de sons falados.
2. Sons falados são signos e símbolos de impressões mentais.
3. Impressões mentais são “cópias” da das coisas actuais.
4. Enquanto eventos mentais e coisas são as mesmas para a humanidade, o discurso não é. Escrita <= Sons falados <= Ideias <= Coisas Aristóteles acreditava que as diferenças na estrutura dos sistemas sígnicos assentava no plano da expressão, não no plano do conteúdo (uma vez que os eventos mentais eram os mesmos).
Também participa no debate da arbitrariedade e convencionalidade dos signos: “um nome é um som falado significante por convenção. Eu digo por convenção porque nenhum nome é um nome natural, mas apenas quando se torna um símbolo”.
Os estóicos
Signo
signo liga três componentes:
o semainon, o significante material;
o semainomenon, o significado ou sentido;
o pragma, o objecto externo referente.
Enquanto que o significante e o objecto são entendidos como entidades materiais, o significado é considerado incorpóreo.
Para os estóicos o signo é uma proposição antecedente numa hipotética e válida premissa maior, que serve para revelar um consequente. Neste ponto de vista a semiose é um processo de indução silogística. Do significante observável inferimos por mediação do significado, num processo de engendrar uma conclusão lógica sobre aquilo pelo qual o signo está.
Os estóicos chamam lekton a uma proposição (domínio do sentido intencional). É uma categoria semiótica (categoria dos lekta) incorporal. Destinguem entre lekta completo e lekta incompleto. O primeiro é uma proposição, o segundo é uma parte desta (nome e predicado são lekta incompletos), que se compõem com outros, obedecendo a vínculos sintácticos. Parecem categorias gramaticais, da expressão, mas são categorias do conteúdo. São antes conteúdo expresso ou exprimível, hoje dir-se-ia que é uma pura posição actancial. Por conseguinte, os conteúdos são elementos incorporais expressos pelas expressões linguísticas que se ligam para produzir enunciados que exprimem posições. O lekton completo como “representação do pensamento” é “aquilo que pode ser veiculado pelo discurso”.
Os estóicos já destinguiam o mero som, ruído, do som articulado significante. O facto de ser articulado conferia-lhe a capacidade de ser incorporado em símbolos escritos. Era uma antecipação da substância da expressão e forma da expressão. Um som articulado pode não ser significante, tem é que fazer sentido para o ser.
Os epicuristas
A escola de Epicuro defendia uma epistemologia materialista: as sensações são impressões realizadas na alma pelas imagens dos átomos da superfície dos objectos.
Os epicuristas defendiam um modelo diádico do signo, rejeitando o domínio do sentido intencional (lekton-estóicos). O referente de um signo era identificado com uma impressão sensível ou um sentimento. Temos apenas palavras e objectos, coisa intermediárias convocadas por signos (lekton, categoria dos lekta) não existem.
Os epicuristas rejeitam também o poder inferêncial da semiose (estóicos). A capacidade da semiose não é apenas domínio dos literatos, que estudaram as técnicas da lógica, mas também de todos os outros, como agricultores, etc. “até um cão quando persegue um animal pelas pegadas está a interpretar signos”. Por outras palavras, o signos não é um juízo, em que há um antecedente numa premissa maior. Concluem que a linguagem verbal, tal como o comportamento animal e os gestos das crianças, tem a sua origem não numa convenção intelectual, mas antes na natureza.
2. O período medieval
Aurelius Agostinho - St. Agostinho aceitava a visão epicurista de signo como sense datum representando alguma coisa que não estava presentemente perceptível. Contudo, seguindo os estóicos, a sua definição de signo faz referencia à mente do interprete como um terceiro correlato da semiose.
A sua concepção é cristã: os objectos da semiose são interpretados como sinais indexicais revelando a vontade divina na criação da terra. Duas definições de signo, uma contempla o plano semântico e a outra o plano comunicacional.
1. Função designativa ou representativa: ” um signo é o que se mostra a si mesmo ao sentido, e que, para além de si, mostra ainda alguma coisa ao espírito”. O que caracteriza um signo é a mediação representativa ou designativa que faz de um terceiro.
2. “A palavra é o signo de uma coisa que pode ser compreendida pelo auditor quando é proferida pelo locutor”. A introdução desta dimensão comunicacional é uma novidade. Temos o signo com quatro elementos: a) Processo comunicacional, b) processo de significação. Diferencia o processo comunicacional da significação.
Para Todorov, Agostinho é o primeiro semiótico: 1. os seus estudos têm propósitos cognitivos; 2. estuda os signos em geral e não apenas os linguísticos. Alarga a doutrina dos signos a outras semioses que não a linguística, como os gestos miméticos dos actores. Destingue entre signos convencionais e signos naturais. Defende também que objectos e signos não são diferentes classes de coisas uma vez que cada entidade material pode funcionar como signo de outro objecto.
Semiótica medieval
A semiótica medieval desenvolveu-se dentro da teologia e do trivium (gramática, dialéctica e retórica). Os maiores tópicos da semiótica escolástica são a visão pansemiótica cristã do universo e da exegesis textual, a disputa realismo – nominalismo e as doutrinas da suposição e dos modos de significação.
Realismo vs. Nominalismo – o problema dos universais
A disputa escolástica sobre a natureza dos universais refere-se ao status ontológico da relação entre signos para conceitos gerais e os seus objectos de referência. Universais era o termo usado para designar os conceitos (ideias) de uma natureza geral. Enquanto que os objectos empíricos (flores, árvores, etc.) eram sempre experimentados como entidades individuais, os predicados dedicados a estes na forma de palavras, como flor ou vermelho, eram universais.
Se o objecto é particular, o termo geral que o designa é universal. Qual é então a natureza destes universais? Terão eles alguma existência fora do sistema dos signos?
Platão defendia que os universais eram ideias existindo independentes dos objectos particulares. Universalia sunt ante res (existem antes das coisas).era a caracterização medieval da posição platónica. Os primeiros escolásticos defendiam que os universais eram coisas reais cuja existência substancial era observável na pluralidade dos objectos (como flores e árvores). Universalia sunt in rebus (estão nas coisas) era a caracterização desta posição. Assim, todas as coisa individuais participam no universal da sua classe. Esta é a posição realista.
Os nominalistas, pelo contrário, argumentavam que somente os individuais existem na natureza. Os universalis não se referem a nada e são apenas nomes (nomina) ou emissões vocais (flatus vocis). Universalia sunt post res (depois das coisas) é caracterização desta posição.
Ockham considerava que os universais como coisa sem uma existência própria, mas estando por conta dos objectos individuais. A existência real tinha que ser individual e não podia ser universal.
Um realismo moderado, também chamado conceptualismo, aceitou a síntese entre as duas concepções. Nesta concepção os universais estão dependentes da mente, mas mantinha-se a ideia de que os conceitos da mente eram formados por similaridades reais entre as coisa de forma comum.
Teoria da suposição
A teoria da suposição caracteriza o modo de produzir sentido do sujeito de uma sentença dentro dum contexto dos seus predicados. Era oposta ao significado, independente do contexto, o sentido geral de uma palavra. Em termos actuais, considerava-se significado como o sentido lexical da palavra.
Eram considerados dez tipos de suposição. O mais importante era o que se referia à existência de uma entidade empírica. Ex.:
Bobi é um animal. “Bobi” supõe um ente existente. Este modo de referência é chamado suppositio personalis.
Subtipos incluem : s. confusa, todo o cão é um animal;
s. determinativa, algum cão está a correr;
s. discreta, Bobi está a correr, ou Bobi é um animal.
Dois outros modos de suposição são o simplex, que remete para um conceito, ou supõe um universal, “cão é uma espécie”; e materialis, onde a referência é feita à palavra como um signo, Homem é um nome (substantivo), ou veloz é um adjectivo. É aquilo que hoje entendemos como metalinguagem. A distinção entre objecto e metalinguagem foi desde cedo discutida pelos escolásticos sob o nome de primeira ou segunda imposição. Palavras como cão , homem… eram definidos como signos convencionais da primeira imposição. Palavras metalinguisticas como nome ou verbo eram definidas como sendo resultado de uma segunda imposição.
Semiótica modista
Teoria dos modos de significação
Os gramáticos modistas acreditavam numa iconicidade essencial entre as coisas do mundo e a estrutura da linguagem (na esteira de Aristóteles). Uma vez que a iconicidade dependia das coisa do mundo, todas as linguagens tinham a mesma estrutura profunda. Tentaram criar uma gramática universal ou especulativa.
Os modistas destinguiam três dimensões da semiose linguística:
coisa (res),
entendimento (intellectus),
voz (vox).
Três modos de significação estavam associados a estas três dimensões da semiose:
modus essendi, fornece fundamento ontológico à semiose, caracteriza a natureza das coisas;
modus intelligendi, as estruturas essenciais são percebidas pela mente humana através deste modo (desde a tradição aristotélica que os conceitos são iguais para tidos os Homens, sendo o resultado de impressões sensíveis externas), o modo de ser precede o modo do entendimento, tal como na causa precede o seu efeito (o acto de percepção e conceptualização pelo modo activo do entendimento (modus intelligendi activus), as entidades mentais resultantes pertencem ao entendimento passivo (modos intelligendi passivus).;
modus significandi, a coisa e o conceito são designados sob a forma de palavras como resultado de acto de imposição, a palavra é composta por um significante vocal (vox) que é associado a um referente (significatum).
Apenas a associação de um som fonético com um referente especifico faz com que a vox se transforme num signo verbal (dictio). A função semântica deste signo verbal é o modo de significação. Por uma primeira imposição o significante vocal é conectado com um referente especifico. Este processo constitui uma relação chamada significação (ratio significandi). A palavra resultante é arbitrária e especifica de uma língua.
Por um segundo acto de imposição, a palavra é associada a vários modos de significação que derivam das suas formas gramaticais. Todas as categorias gramaticais ou partes de discurso são interpretadas como tendo características semânticas gerais que se combinam com o sentido lexical básico da palavra. A relação semântica deste modo é chamadas consignificação (ratio consignificandi). Este sentido “consignificado” não é arbitrário. Corresponde ao modo de entendimento dos conceitos e é universal.
Os modos de significação são criados pelo intelecto, que relaciona a palavra com o modo de ser da coisa. O estudo destas dimensões das categorias universais da linguagem formam o núcleo da semiótica modista.
Exemplos desta visão modista da linguagem como ícone da realidade são as interpretações das classes de palavras como os nomes, os verbos ou os pronomes:
”o nome é definido por referência ao seu modo essencial de significar substâncias, estados permanentes ou entidades”;
”o verbo é a parte do discurso que significa pelo modo de mudança, de possibilidade de vir a existir, movimento ou existência”;
”o pronome significa substância sem referência a qualquer qualidade”.
3. Racionalismo
Ênfase nos poderes do intelecto humano, desenvolveu dois tópicos de relevância semiótica:
1. a natureza mentalista do signo,
2. a procura de uma gramática racional universal, comum a todas as línguas
Rene Descartes (1596 – 1650)
O racionalismo cartesiano é estritamente antropocentrico. Os animais caracterizam-se não só pela ausência de linguagem como pela ausência de razão – (negação da importância teorética da zoosemiótica).
O axioma das ideias inatas, que pressupõe a prioridade do conhecimento intelectual sobre a experiência perceptual, e o dualismo mente – corpo, são a base da teoria da significação que enfatiza os conceitos em detrimento das coisa (referência).
O problema da diversidade das línguas é um problema de ordem da estrutura superficial uma vez que só os sons são variáveis, as ideias são constantes. A estrutura do pensamento e razão é comum a todos os Homens (também para Aristóteles os conceitos são comuns a todos os Homens, o discurso não).
Port-Royal
Antoine Arnaud (1612 – 1694)
Claude Lancelot (1616 – 1695)
Pierre Nicole (1625 – 1695)
A base da semiótica da escola de Port-Royal é um modelo mentalista e diádico de signo. “O signo compreende duas ideias – uma da coisa que representa, a outra da coisa que é representada – e a sua natureza consiste em excitar a segunda pela primeira” (Arnaud e Nicole). Esta concepção diádica não consiste numa entidade física e noutra mental, mas sim em duas entidades mentais: a ideia ou imagem do som por um lado, o conceito por outro. É uma antecipação do significante (imagem acústica) e significado de Saussure.
Esta semiótica destingue 4 tipos de signos:
1. indexicais naturais, como os sintomas médicos, ou respirar para “vida”;
2. símbolos motivados (indexical ou iconicamente), como símbolos iconográficos do cristianismo;
3. ícones naturais, como as imagens dos espelhos;
4. signos convencionais, como as palavras.
Só os últimos são objecto da gramática de PR. Neste âmbito introduzem diferenciações como : 1. significação própria e acessória (denotação e conotação); 2. compreensão e extensão (intenção e extensão).
A arbitrariedade, característica da quarta classe de signos, é específica da relação entre significante e significado ( e não do referente). É puramente arbitrário juntar um conceito a um som em vez de a outro. Os conceitos são claros e distintos, não são arbitrários. A arbitrariedade provem do significante, é um fenómeno de estrutura superficial. Pelo contrário, a esfera dos significados ou ideias racionais está sujeita a leis válidas e universais da mente humana. Não é afectada pelo que mais tarde se designaria por relatividade semântica.
Gottfried Leibniz (1646 – 1716)
Tem uma visão pansemiótica: inclui nos signos palavras, letras, símbolos químicos e astronómicos, caracteres chineses hieróglifos, marcas musicais, algébricas e aritméticas, estenografia e outros signos que usamos pelas coisas quando pensamos. A sua definição de signo segue a tradição escolástica: ” um signo é aquilo que percepcionamos, e por outro lado, consideramos conectado com outra coisa, em virtude da nossa ou da experiência de outrem”. A semiose é baseada na associação de percepções e o signo é o instrumento humano da cognição. Leibniz estudou signos escritos e visuais como os caracteres e definiu-os como marcas visíveis de conceitos. Os caracteres são arbitrários por eles próprios, mas os princípios da sua conecção no discurso racional não são. Há uma relação entre a estrutura do discurso e as coisas do mundo natural que são fundamento da verdade. Por outras palavras, a estrutura sintáctica dos signos está relacionada com a realidade através de uma relação de iconicidade diagramática. O fundamento desta semiótica de Leibniz é um princípio metafísico de harmonia preestabelecida: todo o mundo está virtualmente representado em todas as mentes individuais, como uma faculdade cognitiva. Isto implica um modelo triádico de signo: uma vez que, ideias correspondem aos seus objectos. Os signos são ferramentas úteis e necessárias que servem de “abreviatura” a concepções semânticas mais complexas que representam. Todo o raciocínio humano é realizado através de signos. Não é possível nem desejável que os objectos eles próprios ou até mesmo as suas ideias sejam sempre distintamente utilizadas pela mente. Por uma razão de economia racional, o signo é uma ferramenta para a realização de novas descobertas.
Leibniz desenvolveu estas ideias gerais sobre a natureza do signo mais especificamente nos três ramos do seu projecto de uma linguagem universal: 1. teoria dos signos, 2. cálculo racional, 3. invenção (arte?)
4. Empirismo britânico
Empirismo: ciência natural como o fundamento de uma filosofia empírica. Temos pois base numa ciência experimental, de lógica indutiva, um modelo filosófico de inquirição. Corrente em antagonismo com os racionalistas, que consideravam a razão e a dedução o fundamento do conhecimento humano.
Francis Bacon (1561 – 1626)
Três tópicos de interesse semiótico: 1. criticismo e cepticismo contra a linguagem, 2. variedade de signos além das palavras, 3. a descoberta de um código binário. Para Bacon “as palavras são tokens ou marks da noção popular (corrente) das coisas”. Podem conduzir a modelos de entendimento correctos ou distorcidos (cepticismo). Os últimos são causados por palavras que “impõem falsas aparências”: 1. palavras de coisa que não existem, 2. palavras confusas ou indefinidas. Temos então: 1. cepticismo da língua, 2. “a cognição não é necessariamente expressa por palavras. Bacon investiga outros signos como gestos, caracteres chineses, hieróglifos egípcios. Estes signos implicam uma semiose directa, sem a intervenção de palavras. Signos: 1. icónicos, têm alguma similitude com a noção; 2. arbitrários, força sígnica por contrato ou aceitação.
John Locke (1632 – 1704)
Posição nominalista, a universalidade não existe nas coisas, que só têm uma existência individual, reside apenas nas ideias e palavras cuja sua significação é geral. Os signos são instrumentos do conhecimento, e existem dois tipos: 1. ideias, 2. palavras. Locke rejeita o axioma das ideias inatas (Descartes): “as ideias provêm das sensações dos objectos externos”, por reflexão. A mente percepciona e reflecte (cada uma per si). Para Locke as palavras estão pelas ideias, são marks destas. As palavras são então metasignos, signos de signos. O significado das palavras “é uma conexão especial de ideias”. Temos aqui a antítese de Saussure, para quem a ideia e a palavra (se bem que autónomas) são inseparáveis. As palavras são ,afinal, a realidade das ideias, que de outra forma permaneceriam ocultas. Trata-se de uma posição individualista, de uma teoria da utilização dos signos. “Com efeito, uma vez que as coisas que a mente contempla não estão presentes na compreensão, onde só aquela existe, é necessário que nela esteja presente alguma outra coisa, como um signo ou representação da coisa considerada: e isso são as ideias. E porque o palco das ideias que constituem o pensamento de um homem não pode ser imediatamente visível para o olhar de outro homem, nem conservado noutro lugar que não a memória, um repositório pouco seguro: são portanto também necessários, para comunicar os nossos pensamentos aos outros, assim como para o nosso uso pessoal, signos das nossa ideias. Aqueles que os homens consideram mais convenientes e que utilizam portanto geralmente, são os sons articulados”. Problema: se as palavras são portadoras de representações individuais, como é que se pode compreender representações individuais dos outros, que podem não coincidir com as nossas? Os indivíduos pressupõem que as suas palavras são também os signos das ideias dos outros. “(Os homens) pensam utilizar a palavra na acepção usual dessa língua, e nesse caso supõem que a ideia de cuja palavra eles fazem um signo é precisamente a mesma a que os homem racionais desse país aplicam esse nome”. Mas com que direito é que os indivíduos pressupõem uma acepção comum? A inserção numa comunidade histórica (“Homens racionais de um país”) ultrapassa a concepção da reprodução individual nominalista. Essas ideias foram criadas por uma comunidade histórica, não são meras representações individuais, ainda que os indivíduos sejam depositários dessas ideias.
5.Iluminismo francês
Condillac (1715 – 1780)
A versão francesa do empirismo tornou-se conhecida como sensualismo. Etienne Condillac é o autor mais representante desta corrente. Teoria da semiose como um processo “genético” e psicosemiótico. Para Condillac “o uso de signos é o princípio que abre a fonte de todas as ideias”. Estabeleceu uma hierarquia de operações semióticas, começando no nível mais baixo e estendendo-se ao mais elevado. sensação – percepção – consciência atenção – reminiscência – imaginação contemplação – memória – reflexão Destingue três categorias de signos: 1. acidentais, onde “os objectos estão conectados com algumas das nossas ideias por circunstâncias particulares; 2. naturais, “as reacções que a natureza estabeleceu para as sensações de prazer, medo, dor, etc.”; 3. por instituição, “aqueles que escolhemos e que têm apenas uma ligação arbitrária com as nossa ideias”. Os três primeiros níveis comportam modos passivos de semiose e não estão associados com nenhum dos três tipos de signo. O nível da reminiscência é a origem dos signos acidentais e naturais. Os signos naturais são aqueles onde cada língua se originou, mas uma língua totalmente desenvolvida está sempre fundada sobre signos arbitrários, que pressupõem o uso do nível da memória. Entre os signos naturais e os arbitrários está a linha divisória entre a comunicação humana e a comunicação animal. Condillac destingue a língua actual de um estágio pré-linguístico da semiose humana a que chama linguagem de acção: “esta linguagem de acção é o germe da linguagem (falada) e de todas as artes que são apropriadas para expressar as nossa ideias”, nomeadamente a arte dos gestos, pantomima, música, poesia, eloquência e escrita. O Homem nasce com as faculdades semióticas da linguagem de acção. Condillac rejeita a assunção de ideias inatas e postula a faculdade inata da linguagem de acção como um necessário pré-requisito para o desenvolvimento de uma linguagem completa e este desenvolvimento é a transformação gradual dos sinos acidentais e naturais em signos arbitrários.
Denis Diderot (1713 – 1784) e os enciclopedistas
Um dos tópicos de interesse semiótico é a distinção entre signos linguísticos e não linguísticos. Para Diderot a linguagem dos gestos não é só mais expressiva mas também mais lógica que a linguagem verbal, porque no seu ponto de vista a linearidade da linguagem falada implica uma visão distorcida da realidade.
No fundo desta proclamação da superioridade da linguagem não verbal está a teoria deste século da mimésis, cuja base é um crédito generalizado na superioridade estética de signos naturais e icónicos em comparação com os arbitrários.
6. O Iluminismo alemão
Johann H. Lambert (1728 – 1777)
Foi o primeiro filósofo a adoptar o termo semiótica para o título de um extenso tratado sobre a teoria dos signos. Desenvolveu a semiótica como um dos quatro ramos de uma teoria geral do conhecimento, que incluía: noiologia (doutrina das leis do pensamento), aletheologia (doutrina da verdade) e fenomenologia (doutrina da aparência).
A “semiótica, ou a doutrina da designação dos pensamentos e coisas, serve para investigar como a língua e outros signos influenciam a cognição da verdade e como estes signos podem ser usados para este fim”.
Cognição simbólica, de acordo com Lambert, é uma indispensável ferramenta do pensamento. A sua vantagem é que permite o renovar de sensações, quando estas não podem ser repetidas. Esta renovação por signos é necessária à clareza na cognição. Sem esta renovação as noções dessas sensações permaneceriam obscuras.
Neste processo de cognição há quatro tipos de signos:
1. naturais,
2. arbitrários,
3. meras imitações,
4. representações (icónicas).
Estes signos estão misturados na nossa linguagem e caracterizam-se por vários graus de similaridade.
Lambert estudou pelo menos 19 sistemas de signos, desde notas musicais ou símbolos químicos, até signos astrológicos, na sua arbitrariedade, motivação, necessidade semiótica, sistematização aproximação ao real. Estes sistemas mostram diferentes graus de aproximação, sendo o mais elevado o dos signos científicos. Estes signos não só representam noções como também indicam relações de uma forma que a teoria dos signos e a teoria das coisa tornam-se interpermutáveis. O fundo desta teorização da iconicidade dos signos científicos é o ideal de um alfabeto universal isomórfico com os factos da natureza de Leibniz.
Na persecução deste ideal, Lambert postula que os signos científicos devem ser baseados numa teoria semiótica que substitua a arbitrariedade dos signos, e que esse signos devem ser mais perfeitos uma vez que encorporam em si uma marca do seu próprio significado. Lambert postula princípios similares para uma gramática universal. A tarefa deste projecto é uma investigação sobre ” o natural e o necessário na linguagem, onde parte da a arbitrariedade deve ser abolida, e parte colocada em conecção próxima com o natural e necessário”.
Immanuel Kant (1724- 1804)
Kant postulou 12 categorias conceptuais básicas do conhecimento humano como sendo as nossa ferramentas a priori para dar sentido ao mundo. Por trás destas categorias estão quantidade, qualidade e relação, que não têm relevância independentemente da sua aplicação na percepção, não se manifestam independentemente da nossa experiência.
A teoria dos juízos a priori, que não deriva do acto de semiose, pode ser interpretada como um poderoso modelo de onde o sentido não deriva do signo.
Para Kant o signo pode ser definido como um “custodian” (custos) que apenas acompanha o conceito em ordem a o reproduzir ocasionalmente.
Kant destingue entre juízos sintéticos e analíticos:
1. No juízo analítico o predicado já está semanticamente incluído no sentido do assunto, ex. – todos os triângulos têm três ângulos, não acrescenta mais informação ao assunto;
2. no juízo sintético o predicado acrescenta mais informação sobre o assunto, ex. – todos os corpos têm peso.
A realidade dos conceitos só pode ser demonstrada por percepção.
Os conceitos a priori da razão pura podem ser apresentados directamente por schemata, ou indirectamente por símbolos. A primeira por apresentação imediata (pressupõem prova imediata), a segunda por analogia (pressupõem uma forma mental que traduz em nós “abstracções apriorísticas”.
Schema (categoria da razão pura) é diferente de imagem, que é uma categoria da percepção (um tipo de percepção icónica).
Assim, temos três tipos de signos:
1. Percepção (é signo dos nossos conceitos),
2. Schema,
3. Símbolo.
Os estetas – sobretudo Alexander G. Baumgarten (1714 – 1762)
1. A iconicidade das artes é o ponto fundamental de relevância semiótica nos estetas. O princípio da imitação (mimésis) na pintura foi considerado o paradigma da iconicidade estética. Sobretudo no caso da poesia, os estetas avançavam explicações para conciliar o ideal estético com a arbitrariedade e a linearidade sígnica. Um percursor desta ideia da iconicidade das artes foi Vico (ver Handbook or Semiotics).
2. A teoria da natureza autotélica do signo estético, expressa na formula de Kant “um prazer desinteressado”, leva à procura da compreensão da arte pela arte. Tónica na função poética da linguagem de Jakobson, no significante.
3. A respeito da poesia, Herder rejeita a natureza autotélica do signo, “os signos, como as letras, sons e melodia contribuem pouco ou nada para o efeito da poesia”. Esta baseia-se antes na natureza semântica. Tónica na função referencial da linguagem de Jakobson, no significado.
Semiotica Contemporânea
• A Semiologia surgiu das ciências lingüísticas
• A Semiótica, no sentido atual da palavra, surgiu do pragmatismo americano
Charles Sanders Peirce (1839-1914)
• Americano, fundador do pragmatismo, é considerado o verdadeiro pai da semiótica”“Toda conclusão ou racionamento é a interpretação de um conjunto de signos”
• A contínua interpretação dos signos foi convertida mais tarde em uma metateoria por Umberto Eco, com a qual ele explica os fenômenos culturais globais
• Especificamente : Horst Pehlke (1988)
Semiótica e Desenho : o tratamento semiótico do desenho engloba a totalidade dos seus processos, o espectro completo dos seus objetos, seus meios, suas situações, assim como o contexto deles.
• Em 1867, Peirce começou a publicar suas investigações semióticas.
• Ele enfatizou o caráter relativo dos signos, i. é, eles somente existem na relação de um objeto e um intérprete.
• Ele qualificou essa relação de três componentes como relação triádica
- PRODUTOR DO SIGNO + OBJETO + INTERPRETE = SIGNO
• Peirce utilizou o conceito de representação, i. é, a noção de que algo responde de outra coisa, ou se trata intelectualmente como se fosse essa outra coisa
• Ex.: a luz da sinaleira em vermelho faz as vezes de um policial que pára o trânsito
• O desenho relaciona-se constantemente com signos representativos, no entanto freqüentemente diferenciam-se os signos diretos e os indiretos :
as funções indicativas remetem de forma direta às funções práticas e as funções simbólicas de forma direta às referências sócio-culturais.
Neste ponto podemos reconhecer claramente a transcendência do enfoque semiótico para o desenho:
o designer projeta, com um objeto, não somente coisas reais, mas também imaterialidades. É importante, portanto, para o processo de projeto, que o designer não se limite unicamente ao uso de signos individuais. Os signos que ele utiliza devem ser compreendidos de forma correta pelo intérprete
Charles William Morris (1901-1979)
•Continuação do trabalho de Pierce
•Na sua obra “Foundations of the theory of signs” diferenciou três dimensões semióticas :
•Dimensão Sintática:
relações formais entre os signos e sua correspondência com os outros signos
•Dimensão Semântica:
relações entre os signos e os objetos, ou seja, seu significado.
•Dimensão Pragmática:
relações formais entre os signos e os usuários destes, ou seja, seus intérpretes.
- SEMANTICA – SINTATICA – PRAGMATICA
Ferdinand de Saussurre
•Entre 1906 e 1911, Ferdinand de Saussure proferiu una série de palestras na Universidade de Genebra; com base nos apontamentos dos seus alunos, foi redigido e publicado a obra “Cours de Linguistique Générale”.
• Saussure é considerado um estruturalista.
• Sua obra abriu caminho à lingüistica no sentido de se tornar uma disciplina independente
• O autor falou sobre o caráter referencial da linguagem, i. é, os homens com a ajuda da linguagem referem-se as coisas que são externas a ele: os objetos e os fatos realmente existentes. Os signos lingüisticos não são unicamente sons físicos, são também impressões psíquicas.
• Saussure chamou esse conjunto teórico de Unidade de “representação” e de “imagem fonética” :
• O conceito de cadeira e a concepção fonética das suas letras não têm conexão alguma. Esta relação se estabelece unicamente por acordo ou convênio coletivo
• Aproximadamente nos anos 30, formou-se em Praga um círculo literário, onde se debateram os princípios do contexto histórico do estruturalismo e onde foram considerados os estudos de Sausurre
• Lingüista tcheco, analisou as funções estéticas de obras de arte, que segundo sua opinião, deveriam ser classificadas com base nos fenômenos sociais.
• Em seus escritos referiu-se tanto ao conceito triádico de Morris como ‘as noções chaves de Saussure
• O ponto central do embasamento semiótico da estética de Mukarovsky é a substituição da idéia de beleza pela idéia de função. Fazendo uso de sua dedução, desenvolveu a tipologia das funções (1942); nela fez menção clara ao estruturalismo.
- FUNÇÕES DIRETAS (Praticas e teoricas) e INDIRETAS (Simbolicas e esteticas)
Roland Barthes
•Outro autor que concorre para a sedimentação do Estruturalismo
•O homem se caracteriza e se diferencia pela “criação de significados”
•O Estruturalismo vê o homem como Homo significans, para o qual o interesse cognitivo concentra-se no ato, no processo e no fenômeno da origem do significado.
•Mithologies (1957)
• Em uma de suas análises, Barthes compara o revolucionário Citröen DS com as grandes catedrais góticas
Lévy-Strauss
•Por volta de 1960, iniciou-se na França uma busca de respostas ao método estruturalista.
•Lévy-Strauss entendeu que as relações entre signos são mais complexas que os objetos.
Jean Baudrillard
•Aplicou o método semiótico na análise do cotidiano. Investigou a linguagem dos objetos e com isto ele pode ser considerado como o autêntico fundador da teoria semiótica do desenho.
•Partindo do pré-suposto que as coisas entorno do homem falam, elas mesmas informam quem são seus proprietários e seus valores, desejos e esperanças.
•Em 1982 ele apresenta a noção moderna da catástrofe semiótica presente : os signos caminham para um desgaste cada vez maior
Humberto Eco
•Este italiano utiliza o conceito de “campo semiótico”, i. é, o local onde se realizam os diversos planejamentos semióticos. Segundo ele, uma análise semiótica têm lugar quando se supõe que a comunicação funciona como envio de mensagens com base em um código.
• Eco relaciona as colocações de Peirce e investiga os processos de comunicação.
• Através da semiótica podem ser analisados todos os fenômenos culturais.
• Os códigos são regras de transformação mediante as quais podem ser decifrados certos signos, ou seja, pode-se chegar ao conhecimento de seu significado através da decodificação
• Denotação : o efeito imediato que uma expressão (um signo) desprende de uma mensagem no receptor (dentro de uma determinada cultura).
Ex : Cadeira = assento
• Conotação : tudo aquilo que pode passar pela mente de um indivíduo para atribuir um significado a um signo (dentro de uma determinada cultura)
Ex : cadeira de juiz = poder
• A conotação pode ser entendida como a soma das associações específicas com base nos signos
• Em sua obra “Introduzione alla semiótica” (1972) ele dedica um extenso capítulo ao tema da semiótica e da arquitetura. Tratou do conteúdo do desenho e do urbanismo. Eco mostrou com exemplos gráficos que o credo do funcionalismo “ a forma segue a função” permanece como algo mítico se o código do produto em questão não foi ensinado e ou transmitido ‘a sociedade
Bibliografia
• BARTHES, Roland. Elementos de Semiologia. São Paulo, Cultrix, 1988.
• ECO, Umberto e SEBEOK, Thomas (org.). O Signo de Três. São Paulo, Perspectiva, 1991.
• ECO, Umberto. Conceito de Texto.
• MERRELL, Floyd. Introducción a la Semiótica de C. S. Peirce. Maracaibo-Venezuela, Universidad del Zulia, 1998.
• NÖTH, Winfried. A Semiótica no Século XX. São Paulo, Annablume, 1996.
• NÖTH, Winfried. Panorama da Semiótica: De Platão a Peirce. São Paulo, Annablume, 1995.
• PEIRCE, Charles S. Semiótica e Filosofia. São Paulo, Cultrix, 1972.
• PEIRCE, Charles S. Semiótica. São Paulo, Perspectiva, 1987.
• SANTAELLA, Lúcia. O que é Semiótica. São Paulo, Brasiliense, 1983.
• SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Lingüística Geral. São Paulo, Cultrix, 1988.
Uma síntese perfeita dessa bela tragetória da Semiótica.